Um espírito mau da parte do Senhor .
texto:1Sm16:14.
- Redação:André Luis.
Na verdade o problema parece ser mais complicado quando vemos que esse texto não é único. Há diversos outros textos bíblicos semelhantes: Em Juízes 9.23 lemos que Deus envia um “espírito mau” para atuar entre Abimeleque e os “cidadãos de Siquém”; 1 Samuel 18.10 e 19.9 trazem mais informação sobre o espírito mau da parte do Senhor e Saul; 2 Crônicas 18.19-22 fala até de um “espírito mentiroso” colocado pelo Senhor na boca de profetas. Há ainda textos que incomodam por dizer que “Deus se arrependeu do mal” (Êx 32.14) e que “Deus cria o mal” (Is 45.7).
Para começar a discutir uma questão tão complexa é importante destacar que o substantivo “mau” e seu adjetivo “mau” tem significado muito genérico. Na verdade, o termo precisa ser dividido em categorias menores. John Hick, um grande estudioso do assunto tem dividido o mal em quatro categorias: a) existe o mal originado por seres pessoais. Esse é o mal moral, isto é, o pecado; b) há também o mal como sensação física da dor e a angústia do sofrimento psicológico, isto é, o sofrimento subjetivo; c) há ainda o mal natural: é o caso do terremoto, da epidemia etc.; e d) existe finalmente o que é chamado de mal metafísico ou inerente à criatura. Refere-se à finitude e contingência dos seres criados que lhe dão um condição de perene de imperfeição.
A tradição teológica cristão sempre viu o mal como tendo origem no uso incorreto do arbítrio humano. Agostinho, o famoso bispo de Hipona, afirmava que tudo o que Deus criou é bom, e que o fenômeno do mal ocorre apenas quando seres intrinsecamente bons se corrompem. Não pode existir nada inteiramente mau, nenhum ser. Mesmo não admitindo a existência ontológica do mal, Agostinho procurou defender a Deus de qualquer culpa pela existência do mal, negação do bem. Por isso, afirmou também que se a existência do mal não fosse uma coisa boa, certamente Deus onipotente não o teria permitido.
Para entender os textos bíblicos, é preciso reafirmar que a fé bíblica do Antigo Testamento, monoteísta e ética em sua essência, nunca admitiu a idéia de que há seres maus comparáveis a Deus. Não existe um dualismo. Toda experiência humana deve ser explicada em Deus e a partir dele. A visão monista do mundo e da divindade de Israel fazia com que até mesmo toda experiência negativa também fosse atribuída a Deus. Por isso até os chamados espíritos maus são enviados por Deus e estão sob o seu domínio, como é o caso de Satanás no livro de Jó (Jó 1.6). Isso chegou a permitir um certo henoteísmo, pois Deus é considerado em alguns textos como o deus dos deuses (Sl 95.4), isto é, acima dos deuses que só existem sociologicamente. Os deuses das nações nada são, e o Deus verdadeiro está acima de todos eles. Por isso há também uma idéia da vitória divina sobre as figuras mitológicas e suas nações. Este é o caso de Raabe, do Leviatã e da Serpente. Na verdade não há um espaço para qualquer divindade ou ser mitológico que se apresente como o opositor de Deus. Isso significa que todos os “seres maus” estão subordinados a Deus, e de certa forma, acabando sendo também “seus servos”, pois não passam de criaturas que só agem até o limite que Deus lhes permite atuar.
Retomando a amplitude semântica do termo “mal”, precisamos entender que é bem possível que a palavra não tenha significado ético em muitos desses textos bíblicos citados. Na verdade, “mal” tem em diversas passagens o significado de “desgraça”, “infortúnio”, “calamidade”. Se entendermos o termo dessa forma, é possível que o “espírito mau” não seja um demônio que se opõe a Deus, mas sim um “espírito arruinador” (que traz sofrimento) de juízo. Isso significa também que o Senhor “se arrependeu da punição que traria ao povo”, pois Deus não se arrepende do mal enquanto pecado! Finalmente Deus não cria o mal, no sentido ético, mas sim “a desgraça” (Veja Is 45.7 na NVI). Deus permite o mal, mas nunca é o criador direto do mal ético; ele não é o autor do pecado.
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